Ela se viu diante do espelho. Como não sabia se estava sonhando ou acordada, resolveu fazer um teste de realidade. Primeiro contou quantos dedos constavam em cada pé e mão. Vinte foi ao número que chegou. Apesar disso, sentiu dificuldade e continuou desconfiando de sua condição onírica consciente. Partiu para o segundo teste. Observou cada detalhe da pintura descascada da parede roxa do quarto. Estavam todas as marcas de noites em claro que se traduziam em rabiscos e gravuras mal acabas. Fitou a janela da cama, esticou-se, viu a cidade amarela. “São as luzes”, gritou. As cortinas transparentes embaçavam sua visão míope da realidade. Colocou os óculos, e, buscou por pistas do irreal. Achou em baixo da cama uma caixa de remédios fora da validade. Não se lembrava da noite anterior e isso aumentou sua desconfiança. Ao abrir a caixa, percebeu um bilhete que dizia apenas: “vá, veja, sinta e pule” com a sua prórpia assinatura. As sinapses iniciaram batalha preguiçosa até que, sem perceber, lembrou-se da vida. Lembrou-se do pânico de altura e da amnésia momentânea que o remédio causava. A tristeza retornou ao seu lugar enraizado após tantos anos de ansiedade. Conviveu, novamente, com os fatos dilacerantemente silenciosos de sua vida. Finalmente, teve uma ideia que, provavelmente, diariamente tem: “amanhã, quero esquecer de tudo novamente, explorar o mundo, e, quem sabe, seguir a luz amarela. Essa noite não posso, pois, voltei a pensar. Só ´sou´ quando não penso”.
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